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Curso IRR – Parte IX: objeto aut-num

Introdução

A referência [2] é uma descrição da RPSL (Routing Policy Specification Language) e foi atualizada por [3], que estende para IPv6. É uma linguagem muito poderosa, que permite aos administradores e operadores de redes especificarem políticas de roteamento em vários níveis e, escalável, ou seja, preparada para receber especificações de novos protocolos que, eventualmente, surjam no futuro. Finalmente, foi projetada com a expectativa de estabelecer políticas de roteamento globalmente que permitissem, cooperativamente, sua manutenção através de bases de dados distribuídas devidamente homologadas ou reconhecidas.

Definindo políticas de roteamento através da RPSL os administradores de ASes:

  • Melhorariam, cada vez mais, a integridade do roteamento na Internet.
  • Usariam ferramentas, que a partir do alto nível de especificação da RPSL, gerassem as configurações necessárias aos diversos roteadores disponíveis.
  • Teriam uma documentação de toda a política de roteamento, da topologia de suas redes e, fácil de ser lida, entendida e mantida, com visão de conjunto.
  • Teriam disponível uma linguagem baseada em objetos, que representam informações de política de roteamente e informações administrativas, extremamente importantes para todos os administradores de redes. Tais objetos são registrados no IRR por pessoas autorizadas.
  • Estariam confiantes (como consequência da cooperação), de que é uma ferramenta capaz de contribuir para que as configurações dos roteadores onde, a pouca intervenção humana protegeria adequadamente seus ambientes, de informações pouco precisas por motivações acidentais ou maliciosas. Vide [3].

As referências [1] e [2], são respeitadas pelos servidores do IRR, que fazem uma análise sintática e semântica sobre os atribustos e seus respectivos valores (como os compiladores). Mais recentemente, os servidores do IRR se ajustaram aos novos objetos propostos na RPSL e estão mais poderosos ao dar sustentação às ferramentas de manipulação das informações da base de dados do RADB (também, as homoladas – intermediárias – e, as privadas). Ganharam os administradores de ASes.

Recomenda-se a leitura do item 2 de [1]: “RPSL Names, Reserved Words, and Representation”.

O objeto aut-num

O objeto aut-num descreve as informações sobre um AS e suas políticas de roteamento, tanto sob o ponto de vista dos anúncios, como da aceitação de redes. Ele se aplica tanto ao IPv4 como ao IPv6.

Um dos mais importantes objetos de uma base IRR usa, intensivamente, a capacidade de relacionamento dos objetos, entre si. Alguns já vistos e outros a serem descritos nesse treinamento nos próximos segmentos. Assim, o objeto aut-num é combinado com o objeto que caracteriza o roteador (inet-rtr) e que fornece o número do sistema autônomo, indica as interfaces do roteador e que por sua vez é combinado com o objeto que mapeia os ASes envolvidos (as-set) e, finalmente se estendem aos objetos route(6) e route-set, dando segurança à informação dos prefixos que são anunciados. Os objetos as-set, route-set e inet-rtr serão discutidos nos próximos segmentos, mas podem ser encontrados em [1] e [2]

Os atributos do objeto aut-num

aut-num:        [obrigatório]  [único]      [primary/look-up key]
as-name:        [obrigatório]  [único]      [ ]
descr:          [obrigatório]  [único]      [ ]
member-of:      [opcional]     [multiplo]   [inverse key]
import:         [opcional]     [multiplo]   [ ]
export:         [opcional]     [multiplo]   [ ]
default:        [opcional]     [multiplo]   [ ]
remarks:        [opcional]     [multiplo]   [ ]
admin-c:        [obrigatório]  [multiplo]   [inverse key]
tech-c:         [obrigatório]  [multiplo]   [inverse key]
cross-mnt:      [opcional]     [multiplo]   [inverse key]
cross-nfy:      [opcional]     [multiplo]   [inverse key]
notify:         [opcional]     [multiplo]   [inverse key]
mnt-by:         [obrigatório]  [multiplo]   [inverse key]
changed:        [obrigatório]  [multiplo]   [ ]
source:         [obrigatório]  [único]      [ ]

Usando o objeto aut-num

No que segue, algumas adaptações foram feitas de [4].

Um cenário simples, para começar

A figura 1 exibe esse cenário simples e, razoavelmente comum:

Figura 1: Uma representação simples de uma conexão usando o BGP

Na figura 1, acima, a política de roteamento tendo em vista o conceito básico de anúncio e aceitação, para que dados da \textbf{Rede 1 } possam trafegar na direção da \textbf{Rede 2 } e vice-versa, está resumida nos seguintes pontos:

  1. \textbf{AS} _ \textbf{x } deve anunciar a \textbf{Rede 1 } para \textbf{AS} _ \textbf{y }.
  2. \textbf{AS} _ \textbf{y } deve aceitar o anúncio de \textbf{AS} _ \textbf{x } e usá-lo, isto é: permitir que pacotes fluam da \textbf{Rede 2 } para a \textbf{Rede 1 }.
  3. \textbf{AS} _ \textbf{y } deve anunciar a \textbf{Rede 2 } para \textbf{AS} _ \textbf{x }.
  4. \textbf{AS} _ \textbf{x } deve aceitar o anúncio de \textbf{AS} _ \textbf{y } e usá-lo, isto é: permitir que pacotes fluam da \textbf{Rede 1 } para a \textbf{Rede 2 }.

O objeto aut-num é quem nos permitirá explicitar a política acima no IRR, através dos atributos import e export. Os respectivos objetos aut-num relativos aos sistemas autônomos \textbf{AS} _ \textbf{x } e \textbf{AS} _ \textbf{y }, enviados para \textbf{email\_automatico@} \textbf{redepegasus.net.br} seriam:

aut-num:    \textbf{AS} _ \textbf{x }
as-name:    \textbf{AS} _ \textbf{x }-NET
descr:      \textbf{AS} _ \textbf{x } Autonomous System
remarks:    ===============================================
remarks:    http://www.exemplo.com.br
remarks:    ===============================================
remarks:    Security Note
remarks:    Any Notification about ASx security please
remarks:    e-mail to: asx.ABUSE@exemplo.com.br
remarks:    ===============================================
import:     from \textbf{AS} _ \textbf{y } accept \textbf{AS} _ \textbf{x }
export:     to \textbf{AS} _ \textbf{y } announce \textbf{AS} _ \textbf{x }
admin-c:    IDASx-NICBR
tech-c:     IDASx-NICBR
notify:     asx-admin@exemplo.com.br
mnt-by:     MAINT-\textbf{AS} _ \textbf{x }
changed:    asx-admin@exemplo.com.br
remarks:    **************************
remarks:    Test only.
remarks:    **************************
source:     PEGASUS
password:   senha_decriptografada_do_mantenedor_\textbf{AS} _ \textbf{x }

aut-num:    \textbf{AS} _ \textbf{y }
as-name:    \textbf{AS} _ \textbf{y }-NET
descr:      \textbf{AS} _ \textbf{y } Autonomous System
remarks:    ===============================================
remarks:    http://www.exemplo.com.br
remarks:    ===============================================
remarks:    Security Note
remarks:    Any Notification about ASx security please
remarks:    e-mail to: asy.ABUSE@exemplo.com.br
remarks:    ===============================================
import:     from \textbf{AS} _ \textbf{x } accept \textbf{AS} _ \textbf{y }
export:     to \textbf{AS} _ \textbf{x } announce \textbf{AS} _ \textbf{y }    
admin-c:    IDASy-NICBR
tech-c:     IDASy-NICBR
notify:     asy-admin@exemplo.com.br
mnt-by:     MAINT-\textbf{AS} _ \textbf{y }
changed:    asy-admin@exemplo.com.br
remarks:    **************************
remarks:    Test only.
remarks:    **************************
source:     PEGASUS
password:   senha_decriptografada_do_mantenedor_\textbf{AS} _ \textbf{y }

Simplificando a apresentação

Para efeito didático, iremos suprimir os atributos já conhecidos e, assim, representaremos nosso objeto, da seguinte forma, com o nome de “Configuração”:

aut-num: \textbf{AS} _ \textbf{x }
...
import:  from \textbf{AS} _ \textbf{y } accept \textbf{AS} _ \textbf{x }
export:  to \textbf{AS} _ \textbf{y } announce \textbf{AS} _ \textbf{x }
...
aut-num: \textbf{AS} _ \textbf{y }
...
import:  from \textbf{AS} _ \textbf{x } accept \textbf{AS} _ \textbf{y }
export:  to \textbf{AS} _ \textbf{x } announce \textbf{AS} _ \textbf{y }    
...

Configuração 1. Cenário simples

Um cenário não tão simples

Vamos ampliar para o cenário representado na figura 2, abaixo, onde agora podemos identificar a Internet:

Figura 2. Um cenário não tão simples

Em tese são quatro, os administradores de ASes envolvidos nesse cenário. Pouco se conhecem e devem pensar de maneira independente. O caráter colaborativo do IRR, entretanto induz a pensarmos que cada um deles estará atento às especificações dos outros em relação à política de roteamento. Tal atenção ocorre de três maneiras: (a) pela pesquisa à base IRR em relação aos ASes que fazem “peering” (seja qual for o tipo de tráfego), (b) durante o uso das ferramentas de apoio (p.ex., RTConfig), momento em que possíveis inconsistências podem ser encontradas e, (c) através de ferramentas de monitoramento próprias ou de terceiros (p.ex., MyASN). Vale um comentário de que tais ferramentas estão cada vez mais interessantes e eficazes, com mudanças nos protocolos e nos equipamentos (em especial roteadores). Um dos indutores dessas transformações é a área de conhecimento que está sendo chamada de “route analytics”. Eis as observações que caracterizam a política de roteamento do cenário exibido na figura 2, sob o ponto de vista de cada um dos sistemas autônomos envolvidos:

  • Sob o ponto de vista do \textbf{AS} _ \textbf{w }:
    1. \textbf{AS} _ \textbf{w } fornece trânsito para \textbf{AS} _ \textbf{x } e \textbf{AS} _ \textbf{y }.
    2. \textbf{AS} _ \textbf{w } fornece rotas locais para \textbf{AS} _ \textbf{z }.
    3. \textbf{AS} _ \textbf{w } deve aceitar o anúncio de \textbf{AS} _ \textbf{x }.
    4. \textbf{AS} _ \textbf{w } deve anunciar a rede de \textbf{AS} _ \textbf{x } para para o resto do mundo.
    5. \textbf{AS} _ \textbf{w } deve anunciar a rede de \textbf{AS} _ \textbf{x } para \textbf{AS} _ \textbf{y }.
    6. \textbf{AS} _ \textbf{w } deve aceitar o anúncio de \textbf{AS} _ \textbf{y }.
    7. \textbf{AS} _ \textbf{w } deve anunciar a rede de \textbf{AS} _ \textbf{y } para para o resto do mundo.
    8. \textbf{AS} _ \textbf{w } deve anunciar a rede de \textbf{AS} _ \textbf{y } para \textbf{AS} _ \textbf{x }.
    9. \textbf{AS} _ \textbf{w } deve anunciar a rede do \textbf{AS} _ \textbf{y } para para o \textbf{AS} _ \textbf{z }
  • Sob o ponto de vista do \textbf{AS} _ \textbf{x }
    1. \textbf{AS} _ \textbf{x } deve anunciar a \textbf{Rede 1 } para \textbf{AS} _ \textbf{w }.
    2. \textbf{AS} _ \textbf{x } deve aceitar o tráfego vindo de \textbf{AS} _ \textbf{w }
  • Sob o ponto de vista do \textbf{AS} _ \textbf{y }
    1. \textbf{AS} _ \textbf{y } deve anunciar a \textbf{Rede 2 } para \textbf{AS} _ \textbf{w }.
    2. \textbf{AS} _ \textbf{y } deve aceitar o tráfego vindo de \textbf{AS} _ \textbf{w }
  • Sob o ponto de vista do \textbf{AS} _ \textbf{z }
    1. \textbf{AS} _ \textbf{z } deve aceitar todos os anúncios vindos de \textbf{AS} _ \textbf{w }.

O objeto aut-num sob a ótica do \textbf{AS} _ \textbf{w }

Vamos nos abstrair de alguns pontos da política de roteamento, nesse exemplo. Primeiro, não iremos definir a política para os itens 4 e 6. Isso porque nos falta algumas considerações sobre outros objetos e recursos dos respectivos atibutos. Portanto, deixaremos para abordar no próximo segmento. Segundo, não estamos interessados em em detalhes do \textbf{AS} _ \textbf{z } exceto o fato de que ele recebe anúncios do \textbf{AS} _ \textbf{w }.

Dito isso, eis o objeto aut-num para o \textbf{AS} _ \textbf{w }:

aut-num: \textbf{AS} _ \textbf{x }
...
import:  from \textbf{AS} _ \textbf{x } accept \textbf{AS} _ \textbf{x }
import:  from \textbf{AS} _ \textbf{y } accept \textbf{AS} _ \textbf{y }
import:  from \textbf{AS} _ \textbf{z } accept \textbf{AS} _ \textbf{z }
export:  to \textbf{AS} _ \textbf{x } announce \textbf{AS} _ \textbf{w } \textbf{AS} _ \textbf{y }
export:  to \textbf{AS} _ \textbf{y } announce \textbf{AS} _ \textbf{w } \textbf{AS} _ \textbf{x }
export:  to \textbf{AS} _ \textbf{z } announce \textbf{AS} _ \textbf{w }
...

Configuração 2. Sob a ótica do \textbf{AS} _ \textbf{w }

Uma pergunta que pode surgir, ao olhar a configuração 2 é: os anúncios de \textbf{AS} _ \textbf{x } e \textbf{AS} _ \textbf{y } já não fazem parte dos anúncios de \textbf{AS} _ \textbf{w }? Boa pergunta! Fica como exercício. Assim, também, os objetos aut-num para os demais ASes envolvidos.

Adicionando mais complexidade ao cenário

A figura 3, abaixo representa um cenário onde \textbf{AS} _ \textbf{x } e \textbf{AS} _ \textbf{y }, através de um acordo bilateral estabeleceram um enlace privativo (em vermelho):

Figura 3: Um enlace privativo no cenário.

Iremos abordar esse novo cenário, na Parte X. A figura foi colocada antes, para se pensar sobre quais preocupações devem ser inseridas na política de roteamente. Por exemplo, se o enlace para o provedor de trânsito falhar, os \textbf{ASes} do acordo bilateral irão permitir o acesso ao trânsito pela conexão privativa?

Itens relacionados:

Referências do segmento

[1] \textbf{RFC2622}, Routing Policy Specification Language (RPSL) C. Alaettinoglu, C. Villamizar, E. Gerich, D. Kessens, D. Meyer, T. Bates, D. Karrenberg, M. Terpstra [ June 1999 ] (TXT = 140811) (Obsoletes \textbf{RFC2280}) (Updated-By \textbf{RFC4012}) (Status: PROPOSED STANDARD) (Stream: IETF, Area: ops, WG: rps).

[2] \textbf{RFC4012 }, Routing Policy Specification Language next generation (RPSLng) L. Blunk, J. Damas, F. Parent, A. Robachevsky [ March 2005 ] (TXT = 35217) (Updates \textbf{RFC2725 }, \textbf{RFC2622 }) (Status: PROPOSED STANDARD) (Stream: IETF, WG: NON WORKING GROUP).

[3] \textbf{RFC2725 }, Routing Policy System Security C. Villamizar, C. Alaettinoglu, D. Meyer, S. Murphy [ December 1999 ] (TXT = 101649) (Updated-By \textbf{RFC4012 }) (Status: PROPOSED STANDARD) (Stream: IETF, Area: ops, WG: rps).

[4] Wijayatunga, C. (Part I) e Upadhaya, G. R. (Part II), APNIC Internet Routing Registry Tutorial. Disponível em http://www.sanog.org/resources/sanog4-IRR-Tutorial-champs.pdf. Acessado em: 29/04/2010.

[5] Cisco, BGP Best Path Selection Algorithm. Disponível em: http://www.ciscopartner.biz/en/US/tech/tk365/technologies_tech_note09186a0080094431.shtml. Acessado em: 29/04/2010.

Categorias:IRR, Peering, Protocolos, TCP/IP, Whois

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