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Internet brasileira: Parte 1. A metáfora da galinha e da águia.

Sejamos galinhas e águias: realistas e utópicos,
enraizados no concreto e abertos ao possível ainda não ensaiado,
andando no vale mas tendo os olhos nas montanhas.
Recordemos a lição dos antigos: se não buscarmos o impossível (a águia)
jamais conseguiremos o possível (a galinha).

Leonardo Boff, [2] pag. 70.

Sur ce dont on ne peut parler, il faut garder le silence.
Ludwig Joseph Johann Wittgenstein

Introdução

Quem inventou o limpador de parabrisas foi o rabino. O americano aperfeiçou, colocando-o para o lado de fora. Não me esqueço desta piada. Primeiro, porque ela é ótima, já que a versão brasileira da piada substituiria “rabino” por “português”. Segundo, porque ouvi-a do Prof. Zohar Manna durante um jantar, em Campinas, onde estava presente, também, sua simpática esposa, Nitza. Ele tinha sido convidado para um seminário, parte do Congresso Brasileiro de Computação, realizado pela SBC, do qual participava, como membro da comissão organizadora. Foi um privilégio indescritível, a oportunidade de conviver pouco tempo com o Prof. Zohar. Para se ter uma ideia de tal privilégio, basta uma olhada em [1].

Lembrei-me do Prof. Zohar Manna, por sua origem judáica. À procura de uma revisão na metáfora da galinha-águia para escrever este artigo, uma pesquisa na base de conhecimento (uso o Zope+Plone, há anos), trouxe-me as seguintes referências:

  • Israel
  • Hebreus
  • midraxe-hagadá
  • Gana
  • James Emmanuel Kwegyir Aggrey
  • Kwame N´Krumah
  • Leonardo Boff

O resultado de Leonardo Boff era esperado. Para reler Leonardo Boff foi preciso ir até uma livraria e completar uma biblioteca desfalcada. Não foi surpresa ver que já era a 48o. edição do livro de Boff, [2]. Foi ótima, a nova leitura! Não sou teólogo, tampouco filósofo ou antropólogo e muito menos sociólogo para entrar no mérito da Teoria da Libertação, de Leonardo Boff. Estava muito interessado na versão da metáfora águia-galinha, dada por James Aggrey, cujos esforços levaram à libertação de Gana, então sob o jugo do império britânico (através de Kwame N’Krumah, em 1952). Claro que o império britânico do passado, já não é o mesmo, mas surpreendi-me, quando atravessava o Estreito de Gilbratar, indo da Espanha para a África (Ceuta) e vendo, sem perder de vista, a possessão inglesa fincada de forma esplendorosa, na pedra de Gilbraltar, ao sul do território espanhol, bem longe da Inglaterra.

A versão de Leonardo Boff sobre a metáfora de James Aggrey é bem elaborada e excede a abordagem desejada neste texto e seus objetivos. Boff usa a técnica dos hebreus (que ocupavam, no passado, o território atual de Israel), denominada midraxe-hagadá, para justificar a adoção de uma versão mais complexa da metáfora. Tal versão, muitíssimo bem elaborada, é uma sensível demonstração de pensamento límpido e grandioso, de Boff. Para quem acredita que o livre-arbrítrio é uma dos mais preciosos bens do espírito humano deve procurar entender a engenharia da metáfora de Boff. Integralmente!

O propósito desse texto é ponderar sobre mudanças no comportamento dos provedores, pequenos e médios, diante da Internet brasileira (ops! PNBL…) usando a metáfora águia-galinha, na simplicidade da formulação de James Aggrey e considerar, lateralmente, com significativas abstrações, o ponto de vista de Leonardo Boff. Mais à frente pretende-se parametrizar a indignação usando a noção de assimetria como forma de medir o comportamento de pessoas e instituições (públicas e privadas), quando da ofensa ao senso comum, no cenário da computação brasileira, foco na Internet.

A águia que não podia voar

Em 1925, dois anos antes de sua morte e durante uma reunião de lideranças políticas, James Aggrey, [3], percebeu que líderes importantes apoiavam a manutenção da colonização inglêsa em Gana. Pediu a palavra e contou a seguinte parábola:

Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas, apesar de sua origem imperial.

Cinco anos após, o camponês recebeu uma visita de um naturalista que ao passar pelo galinheiro observou a águia e disse que aquele pássaro não era uma galinha. O camponês concordou que o pássaro era uma águia, mas que foi criado como uma galinha e, portanto, se transformou em uma galinha apesar de sua deslumbrante diferença.

O naturalista, experiente, não concordou e disse que uma águia sempre é uma águia e, que seu coração a faria voar, um dia. Ao que o camponês retrucou, afirmando que ela nunca mais voará como águia pois tinha virado galinha.

Para encerrar o debate entre dois pontos de vistas diferentes resolveram fazer um teste. O naturalista pegou a águia, ergueu-a bem alto e disse: – Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe! E soltou a águia.

A águia viu as galinhas logo abaixo e pulou para o galinheiro. O camponês então falou: – Não lhe disse? Ela virou uma simples galinha. Ao que o naturalista, também teimoso respondeu: – Não! Ela é uma águia!!! Vamos experimentar amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no telhado e disse: – Águia, você é uma águia, abra suas asas e voe! Mas, a águia preferiu ir para junto das galinhas que estavam no chão. E o camponês, sorrindo: – Eu lhe disse! Ela virou galinha! Mas o naturalista não se deixou vencer: – Vamos experimentar uma única vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte ambos levantaram bem cedo, pegaram a águia e levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma monhanta. O naturalista ergueu a água para o alto e ordenou-lhe: – Águia, ja que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia olhou ao redor, tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direação do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte. E, nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento?

No final da história, Aggrey conclamou: – Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.

A Teoria da Libertação e a Internet no Brasil

Leonardo Boff, escreve ([2], página 78): “O que efetivamente conta não são as coisas que nos acontecem. Mas, sobretudo, a nossa reação frente a elas. nossa reação irrompe a força irradiadora dos arquétipos”.

Os arquétipos, por exemplo, no caso dos provedores e a PNBL não são propriamente a Telebrás e suas ações, mas sim, a retórica fundamentalista e ação efetiva dos donos da Telebrás, como nos mostra, supreendentemente, a recente troca de comando. Os provedores estão deixando acontecer, ao sabor de interesses, que não os seus, as decisões do estado, que os afetam diretamente, em particular, no futuro. E, também, se deixam enganar pela noção falaciosa de que os bandidos são as operadoras da telefonia brasileira. Ora, elas estão fazendo o papel correto de não se contentarem com os grãos jogados para ciscarem, mesmo que fartos. O que é, absolutamente correto, como membros da iniciativa privada. Exemplarmente, a suposta ilegalidade das operadoras de telefonia como fornecedoras de acesso à Internet, por omissão, já é coisa do passado.

É difícil para um leigo, imaginar o que poderia gerar a indignação de algumas instituições, em relação a obra de Boff. O fato é que o destino do seu midraxe-hagadá sobre a metáfora águia-galinha é o ser humano e evidencia uma proposta para o crescimento do espírito humano e seu bem estar. O inconquistável espírito humano! Ele faz interessantes e independentes abordagens (apesar de teólogo), entre o “big-bang” e o Gênesis, entre paneteísmo e panteísmo, além de contrapor com messiânicos, sem pestanejar, tais como: Jesus Cristo, S. Francisco de Assis, Dalai Lama, Mahatma Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, Mãe Menininha do Gantois, Chico Mendes, Einstein e muitos outros, numa mistura inteligente. Talvez ai resida a facilidade de algumas instituições se indignarem em relação ao seu ponto de vista global. Indignação, diga-se de passagem, contra a defesa da indignação.

Neste artigo, estamos interessados em algumas passagens marcantes de Leonardo Boff e, com poucos comentários enumeramos-as:

  • [Pag. 70:] “Sejamos galinhas e águias: realistas e utópicos, enraizados no concreto e abertos ao possível ainda não ensaiado, andando no vale mas tendo os olhos nas montanhas. Recordemos a lição dos antigos: se não buscarmos o impossível (a águia) jamais conseguiremos o possível (a galinha).”
  • [Pag. 73:] “…sem sinergia, ninguém recupera as asas da águia ferida que carrega dentro de si. Um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte. Porque a união faz a força.”
  • [Pág. 81:] “Nada do que realmente vale se alcança sem esforço e sem fatigante trabalho. A águia, para resgatar sua identidade, teve que se autossuperar. Vencer o medo inicial. Abrir seus olhos ao Sol.”
  • [Pág. 116:] “A transparência é uma das características que melhor definem a pessoa integrada e bem realizada.”
  • [Pág. 117:] “Poderes mundiais têm interesse em manter o ser humano na situação de galinha.” Ou, há interesses em manter os pequenos e médios provedores na situação de galinha, embora, eles sejam mais habilidosos ao tratar o mercado local e se dão muito bem quando propõem soluções à comunidade à qual pertencem. Agregam valor aos serviços, por demanda local, em outras palavras.

A síntese da proposta de Boff estão nos seguintes pontos:

  1. É necessário indignar-se com aquilo que afeta seus interesses, respeitando a moral e a ética.
  2. O velho ditado é fundamental: a união faz a força.
  3. Representatividade isenta, desprovida de interesses individuais e do corporativismo é a principal arma.
  4. Devemos agir como as grandes corporações, que recusam os grãos jogados para ciscarem. Em outras palavras devemos procurar agir como águias.

Referências

  1. DERSHOWITZ, N. Pæan to Zohar Manna. Disponível em: http://www.cs.tau.ac.il/nachum/papers/Paean.pdf. 24 Sept. 1997. Acessado em 05/06/2011.

  2. BOFF, L. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. 48. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2010.

  3. WIKIPEDIA. James Emman Kwegyir Aggrey. Disponível: aqui. Acessado em 23/06/2011.

Categorias:Comportamento, TCP/IP

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